quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Caos, Noite e Morte. Minha resenha de A Tristeza Extraordinária do Leopardo das Neves -Joca Reiners Terron.




Um crime é cometido dentro de uma seção noturna do zoológico da cidade. Um policial civil investiga o crime, enquanto uma criatura de hábitos noturnos vive escondida em um casarão e um taxista sádico instiga seus três cachorros rotweiller a atacar tudo o que vê pela frente. Esse é o enredo.

Na Teogonia, a Noite nasceu do Caos. E da Noite nasceu a Morte. O tempo todo durante a leitura eu pensava nesse tripé Caos, Noite e Morte, sobre os quais a história do livro se sustenta. E é por eles que analiso minhas impressões.

Caos: Não há linearidade. Entre fatos, depoimentos colhidos e acontecimentos presentes, o policial apresenta flashbacks de sua infância e juventude. O caos também se apresenta na estrutura psíquica dos personagens. Todos têm algum desvio de conduta, validando a máxima que de perto ninguém é normal. O cenário, o bairro do Retiro, é um lugar que recebe fluxos migratórios de bolivianos

Noite: A história quase toda se passa à noite. Principalmente porque a criatura, uma espécie de personagem principal, tem hábitos noturnos. Creio que por ser a noite propícia para acobertar o que temos de pior, os personagens não têm nome. E assim são tantas crueldades cometidas, que elas acabam virando hábitos impessoais.

pessoa com Porfiria


Morte: É um livro que fala muito sobre morte. Fala muito sobre uma doença chamada Porfiria, que é uma enfermidade "que deixa a pele extremamente sensível à luz, com o surgimento de bolhas, necrose da pele e gengivas, prurido, edema e crescimento de pelos em regiões como o rosto". Há constantes descrições da cracolândia, onde os usuários se aniquilam nos caximbos de craque, há personagem que abusa de remédios para suportar a vontade de dormir e trabalhar em turnos duplos.

É um romance criativo, algo próximo das fábulas que ouvíamos quando crianças, mantendo seu caráter assustador. Fala sobre nossos preconceitos e nossa dificuldade de lidar com o que é diferente. E principalmente sobre solidão. E apesar de ser tão escuro, há beleza em cada página.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Escrevendo para poucos. Minha resenha de Erefuê, do Evandro Affonso Fereira



Um homem, que se casou com uma ninfomaníaca que o traía de várias formas possíveis pelo prazer do sexo, um dia não aguenta mais e mata um dos amantes da mulher. Enquanto aguarda o julgamento, vai tendo flashbacks de sua juventude e do próprio casamento. Esse é o enredo de Erefuê.

"Quando escrevo dou o máximo de mim. Nem sempre o leitor faz o mesmo. Para escrever um livro, leio muito. Não quero dizer que isso seja bom ou ruim, mas me dedico. Logo, o leitor também tem que ser dedicado. Estou sempre querendo dificultar a vida do leitor."

Com uma afirmação dessas, sabe-se de antemão que os livros do Evandro não são de fácil leitura. Sua escrita ganhou fama de hermética pelo estilo único desenvolvido por ele. É um estilo marcado pela oralidade e palavras arcaicas ou pouco usuais e períodos com uma estrutura interessante. Eu arrisco dizer que a escrita do Evandro não seria como é se não tivesse existido Guimarães Rosa. Referências mitológicas também aparecem o tempo todo.

A Literatura é a arte que usa a palavra como matéria prima. E Evandro sabe lapidadar. Em Erefuê, há a substituição de artigos por pronomes desnecessários ao longo de todo o livro: "saudade delas alfombras macias que minha avó tecia", "nunca mais notícia nenhuma dele meu primeiro amor". Claro que os pronomes desnecessários se tornam muito necessários para sua escrita bastante peculiar.

Há também o uso recorrente de onomatopéias e interjeições: "cabeça agora pendendo pro lado esquero pof pof pof batendo na fronte como quem tenta escoar sabe-se lá pensamentos funestos", "desisto apre cabeça latejando puh melhor jogar revistinha no lixo", o que cria uma sonoridade muito original aproximando a escrita da oralidade.

"Estava ficando doentio no começo. Eu ficava uma semana, um mês, para encontrar três palavras sonoras, uma aliteração que desse uma sonoridade. E estava ficando chato. Acho que o leitor também estava achando muito chato."

Apesar de encarar seus livros mais antigos como obsessivos demais, eu gosto dessa escrita do Evandro. Após cinco livos, ele usa menos essas construções, mas usa. Gosto da escrita como desafio e a dele não é só um recurso vazio. É fruto de um esforço genuíno para construir uma boa literatura. Dono de dois sebos que faliram pelo conteúdo excelente ("fali por excesso de qualidade. O pior que tinha nas estantes era Borges"), o autor reflete suas influências na literatura que produz. Só colocamos para fora aquilo que colocamos para dentro. E em tempos de livro como mera mercadoria, ele vai continuar sendo um autor de livros para poucos, mesmo com suas altas vendagens.

"Eu sempre escrevi pensando atingir poucas pessoas. Não se escreve para muita gente pesquisando mais de mil dicionários -africano, latino, etc, etc-. Não se atinge muita gente se ao invés de louco, falar zoró. E não contente com isso, falar zoroó, zoropitó. Eu comecei minha literatura me preocupando com a vida da palavra."


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O ser humano é um devir. Minha resenha do livro Travesti, de Don Kulick



Travesti é um livro de antropologia, porém escrito para que qualquer pessoa leia. Don Kulick é antropólogo e para escrever esse livro saiu da Suécia e foi conviver por oito meses, 24h por dia, com as prostitutas travestis de uma região pobre de Salvador em 1997/1998. A diferença desse livro para o que sabemos sobre as travestis através dos veículos de informação é que Don Kulick despe-se do preconceito e resolve deixar com que as travestis falem por si.

O discurso que trata sobre as travestis no Brasil é viciado. Eles são os responsáveis pela construção da imagem de pessoas criminosas e extremamente perigosas que povoa o imaginário do brasileiro. Assim, foi uma surpresa para mim constatar que muito do que eu pensava estava bem longe da realidade.

Uma parte essencial na vida das travestis é o dinheiro. Elas são tão rejeitadas pública e constantemente, que acabam por tentar comprar o afeto de pessoas que ocupam um lugar importante em suas vidas. Geralmente as famílias que as expulsaram aceitam de bom grado os presentes e o dinheiro que elas mandam com a vida de prostituição. Recebem-nas quando elas fazem visitas. Mas cortam o contato se porventura esses mimos acabam. Os namorados são mantidos da mesma forma.

As relações com os namorados são complexas. Geralmente eles não trabalham e são sustentados pelas travestis, que não gostam nem que eles saiam de casa. E a relação dura enquanto durarem os presentes e o dinheiro dado para o uso de drogas. Se o incentivo cessar, o namorado acha uma travesti com uma oferta mais atraente. Aos nossos olhos, é uma relação abusiva por parte do homem. Mas na percepção das travestis, elas fazem isso porque gostam de estar no controle. São elas que mandam e se sentem donas de algum poder podendo bancar alguém. É como se pudessem dizer que tiveram sucesso na vida.

O conceito de gênero, de acordo como pensam as travestis, é bem fluido e varia pela forma como uma pessoa se comporta, principalmente na cama. O namorado de uma travesti pode até ser passivo para ela às vezes, mas depois disso ela vai perder o interesse por ele. Porque elas bancam um "homem", jamais outro "viado". Numa relação, a travesti não busca companheirismo nem satisfação sexual. Elas buscam gênero. Buscam se sentir "mulheríssimas". É um dos momentos em que elas emulam o gênero feminino. E os namorados falam de si mesmos como heterossexuais. E vêem sua relação com as travestis apenas como forma de obter algum lucro, materialmente. Pode até ter algum sentimento, mas é sempre secundário. Apesar das roupas "femininas", o corpo conseguido após aplicações de silicone industrial que muitas vezes dão errado, gestos e atitudes construídos, as travestis não se vêem como mulheres. Kulick deixa claro que elas são uma mistura do que pensam delas os essencialistas e os construtivistas.

Esses são apenas alguns fatos desse livro muito bem escrito. Foi lançado em 1998 nos Estados Unidos e a tradução chegou aqui em 2008. Continua atual e não esgota o assunto. Vale a leitura.