Na charneca, respiro a vida que vai se acabando, a longevidade ficando rarefeita.
Em meio ao verde, a morte corre ao lado, alcateia de fome.
Mato pra não morrer, mostro os dentes pra me agarrar à vida.
Enquanto isso a terra me come.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
domingo, 22 de março de 2015
A Trégua, sobre o livro de Mario Benedetti
Sou o tipo de leitor que não se contenta somente com a leitura. Tenho que ter uma relação física com o livro. Gosto de pegar, girar, ver cada canto, cheirar as páginas com cheiro de livro novo ou cheiro de livro guardado, alisar. Talvez por isso eu nunca tenha gostado de livros digitais e espero nunca precisar usar. Dizem que cada leitor tem seu ritual, e eu tenho os meus.
Esse livro estava na minha estante há bastante tempo. Ele era preterido sempre que eu iniciava uma nova leitura. Acho essa coleção Literatura Ibero-Americana, da Folha, muito bonita e com excelentes obras. Mas de alguma forma a capa desse título em especial nunca me atraiu. Essa imagem nunca me tocou.
Assim, um dia senti uma decepção muito grande com um livro da Veronica Stigger, que tem uma arte fantástica e achei que me agradaria muito. Não consegui nem terminá-lo e coloquei de volta na prateleira, ao lado de A Trégua. O livro me olhou com olhinhos de mendigo. Creio que quem lê entenderá essa metáfora. Resolvi dar uma chance e valorizar-lhe a coragem, já que ele se colocava à prova tão destemidamente.
Fiquei encantado com Matín Santomé, personagem central e narrador do romance, que é feito em forma de diário escrito pelo próprio Martín. Creio que todo leitor gosta de imaginar que os personagens mais queridos realmente existem em algum plano. Eu sou assim. Achei Martín muito simpático e bastante sofrido (sempre tenho um carinho especial pelos sofridos). Espero que ele esteja por aí em algum lugar.
O diário nos dá a dimensão do peso da rotina vivida por esse homem de "meia idade", perto dos 50 que está prestes a se aposentar e sente um misto de expectativa e desespero ante a possibilidade do ócio. O que fazer com o tempo que ele finalmente possuirá para si?
Ele fala com muita sinceridade no diário, como poucas pessoas ousam falar para si mesmas. A família aparece aos poucos, vai sendo pintada devagar. Ele possui três filhos mas não sabe lidar com a distância deles. Sente a ânsia de comunicação, mas percebe que o tempo para fazê-lo já se foi. Sua oportunidade passou há muito. Teve de criá-los a maior parte do tempo sozinho, porque a esposa morre logo quando o terceiro filho nasce.
A esposa ocupa um lugar especial porque ele luta para reter consigo uma lembrança dela que não pertença a mais ninguém. Parece que tudo o que lembra dela é pastiche de lembranças dos outros, como se ele fosse um artista ladrão de obras alheias. A única memória que lhe resta é a tátil. Lembra do que toque em sua pele, em suas coxas, mas não é capaz de lembrar seu rosto. Os filhos parecem lutar igualmente com as lembranças. Em uma passagem muito bonita, Blanca, a filha, diz à mesa de jantar: "às vezes me sinto infeliz, só por não saber do que tenho saudade". Sofre por não se lembrar.
A rotina já pesa muito quando aparece no escritório uma mulher que vai mudar a vida de Martín. Uma mulher muito comum, que aos poucos vai se destacando dos demais comuns à volta, como sempre acontece quando gostamos de alguém, pois o sentimento é sempre construído. Essa mulher vai aos poucos dando cor ao cotidiano que estava cada vez mais cinza. Ele começa a repensar suas idéias em relação à família e a deus, com quem sempre teve uma relação conflituosa.
Mais não posso dizer porque penso que quem me lê vai dar uma chance ao livro.
ps: durante a leitura, eu não conseguia deixar de pensar na música Roda Morta, do Sérgio Sampaio, que conta sobre a "sordidez do conteúdo desses dias maquinais". É a vida do trabalhador que encara todos os dias o desbotamento da vida. Vale a pena ouvir:
quinta-feira, 5 de março de 2015
Me Entregue Quando Eu Me Esquecer De Mim
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| Manfred Kielnhofer -esculturas |
Gosto da simplicidade de um cachorro vira-lata. Cachorro de raça é arrogante. Ele sabe que vale dinheiro. Enquanto o vira-lata só pode contar com olhinhos de pena como moeda de troca.
Gosto de aliterações. Leio-as como quem saboreia um prato fino, lentamente. Com os sons repetidos brincando na língua e nos dentes como quem aprende o bê-a-bá.
Gosto quando alguém me chama por um apelido secreto, criando um companheirismo que beira a cumplicidade. Sempre me ganha.
Gosto de escrever sobre a morte enquanto ela não vem.
Gosto da carga de solidão que a escrita exige. A urgência que a palavra pede na hora de ser escrita é egoísta. E eu sempre cedo.
Gosto de acordar e imaginar que vou morrer naquele dia. Gosto de viver como quem está sempre de partida.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Máquina de Fotografar Sombras
Me interessa muito mais o vai-e-vem de quem é furtivo, de quem escapa do olhar e fica sempre em segundo plano.
Comecei a fotografar as sombras enquanto elas estavam distraídas.
Não é fácil. São tímidas e se escondem até à noite.
Entre um click e outro, lembrei de um amigo que passou a vida sendo sombra de si mesmo e dos outros.
Não possuía vontades ou cedia sempre à vontade dos outros.
Cresceu como os outros queriam, estudou o que os outros queriam, arrumou o trabalho que os outros queriam.
Se casou com uma pessoa que é seu oposto, como geralmente acontece.
Ele foi desaparecendo aos poucos, sombra que era, e chegou o momento em que eu tirei-lhe a foto.
Sua figura desvanecia, como se estivesse em uma pintura velha, e estava cada vez mais parecida com vapor.
Até que chegou o dia em que ele desapareceu.
Espero que ele encontre a si mesmo algum dia.
Coloquei sua foto entre meus catálogos e parei de fotografar.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Não Conheço Sua História
Ela caminhava de madrugada. Gostava do silêncio enquanto fumava seu cigarro.
Parou pra uma conversa com o mendigo, que lhe pediu um trago.
Como de costume, subestimou aquele homem maltrapilho." É só mais um vagabundo".
Mas ele falava das coisas que não se vê. Sem dinheiro, ele aprendeu sobre o que não tem valor.
Contou a ela que às vezes dói.
"Mas onde dói, moço? Você se machucou?"
Ele disse que não. Às vezes dói aqui dentro mesmo. Como Macabea, sabe?! Dói ver a vida passar e a ela não pertencer.
Ela não soube se foi pela referência a Clarice Lispector, ou pela beleza das palavras, mas percebeu que aquele homem era grande.
Achou pouco lhe dar dinheiro, então lhe deu um abraço.
O homem sorriu, um sorriso sem dentes. Mas era exatamente o que ela queria: compreensão.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
A Velhice da Mulher
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| Retrato de Adele Bloch-Bauer I -Gustave Klimt, 1907 |
Hoje me olhei no espelho e não reconheci meu rosto. Fui retocando um pedaço aqui, outro ali, sempre negando a passagem do tempo. Que mulher quer ficar velha?! Somos amantes da estética de plástico. Nossas Barbies não envelhecem.
Cheguei na meia idade. Meia. Meio caminho percorrido antes da morte. Já contam nosso tempo restante em vida. A matemática pode sempre ser cruel com a nossa utilidade.
Os cabelos brancos começaram a aparecer. Me aconselharam pintar os cabelos. Disseram que não existe esse negócio de mulher grisalha. "Veja o telejornal. As apresentadoras mulheres saem de cena antes de envelhecer. Cabelos grisalhos é coisa pra homem". Mas que fim digno. Sair de cena enquanto ainda se está no auge. Pintei os cabelos.
As primeiras rugas começaram a aparecer. Me aconselharam fazer uma plástica. "Que tipo de mulher ostenta os pés de galinha"?! Eles tinham razão. Nossa idade não pode servir como cartão de visitas. Fiz a cirurgia, sofri, mas levantei tudo o que caía. Recebia elogios e voltei a receber cantadas pelas ruas. Até que encontrei o homem ideal. Ele disse que minha "boa aparência" foi o que lhe chamou a atenção. O romance durou o tempo que ele demorou pra ver a diferença entre meu rosto e minhas mãos. Há rugas que a plástica não esconde.
Mas prossegui tentando manter a cabeça erguida. Foi quando fiz 50. A idade de ouro. Me aconselharam mentir a idade. "Nenhuma mulher diz a sua idade assim. E quando perguntam, diga que é falta de respeito". A idade é tão vergonhosa de se dizer quanto o salário. Desde então, nos meus aniversários sempre coloco o mesmo número sobre o bolo. As velas dizem que faço 37 há cinco anos. Meus amigos fingem não notar o elefante na sala, e eu finjo não notar suas caras de desapontamento.
Um sinal da velhice que me preocupou. Menopausa. A minha chegou e eu a encarei como ela é de fato: um arauto de morte. Queria ficar feliz pelo fim da rotina de absorventes, anticoncepcionais e cálculos confusos, mas não. "Agora, além de velha você está seca". Eles têm razão. Quem vai querer uma mulher na menopausa?! Pra isso não há remédio nem conserto.
E tantos outros casos que me fizeram mudar. Não foi contra minha força, porque eu já tinha assumido como correto o discurso que me impedia de envelhecer. Agora não quero encarar o espelho. Quero tirar esses acessórios que coloquei pra que não me vejam. Tenho vergonha do tamanho das minhas orelhas, uso brincos grandes. Vergonha do tamanho do nariz, uso maquiagem para afinar. Tenho vergonha da solidão, saio de casa sempre carregando um livro. A gente vai criando armaduras contra os duros comentários.
Quando criança, me perguntavam o que eu queria ser quando crescer. Eu queria ser grande, adulta. Hoje eu me pergunto o que quero ser daqui pra frente, com vários objetivos alcançados. Eu só queria me despir. Despir a pele e começar de novo.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Inferno
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| José Benlliure y Gil -La Barca de Caronte |
Deixei meu corpo lívido e sem vida para trás. Após o julgamento, veio a sentença: inferno. Fui pego no contrapé. Durante a vida só fiz o bem, preguei a moral e os bons costumes, construí igrejas a cada esquina e coloquei deus em cada casa. O amém ecoava intenso como densa bruma a entupir os ouvidos.
Não há escolha senão descer. Seguindo a fila de almas, me perco em meio à multidão. Trapaceiro, tento achar uma saída, algum buraco milagroso nas paredes que me alçará à redenção. Depois de um tropeço, rastejo junto aos vermes. Açoites me colocam de pé. São demônios que patrulham os cantos, e dando pancadas com o ferro em brasa, me obrigam a retomar o caminho.
O Caronte me pede uns trocados. "Estou liso", é só o que consigo dizer em meio ao desespero frente àquela máscara sem rosto, com olhinhos que sei que zombam de mim. Ele me rouba um pouco de alma como se fosse moeda de troca. Espero, mas não me volta troco. Fico preocupado, porque alma é o que tenho de menos. Poderia ter roubado vontade, assim só me restaria resignação para ficar nesse lugar imundo.
Começamos a travessia. Não sei como ele consegue, com um remo só, vencer o nada. Vejo rostos submersos nas águas. Seus semblantes já perderam o instinto de sobrevivência, agora só imploram por perdão. Ainda alimentam a esperança de sair dali, contrariando a placa na entrada do inferno que manda fazer justo o contrário. Estico a mão para tocar-lhes o rosto. Não alcanço. Inclino o rsto para tocar-lhes a alma. E eles entendem o recado: não estão sozinhos. Vejo de relance um rosto familiar me escarrar no rosto. Era Augusto dos Anjos, sempre a escarrar na boca que lhe beija.
Chegamos ao fim da travessia. Não há norte, só há chão. Andamos até os cantos, nas paredes. Depois de me trancar em uma sela -pela eternidade-, o Caronte me encara demoradamente. Ali no escuro, percebo que seus olhinhos não são zombeteiros, mas sim de pena. Digo a ele que não se preocupe, e ele assente com um gesto de cabeça. Ele me diz, com a voz rouca pelo tempo, que atrás das grades seria minha nova casa, mas que não estou sozinho. Eu digo a ele que tudo bem, pois é tudo questão de perspectiva, porque de onde eu estava, eu também o via atrás das grades. Se ele ainda tivesse lágrimas, acho que choraria por perceber que somos todos prisioneiros. Mas nem isso lhe resta. Talvez por isso o rio que atravessamos seja salgado.
Depois que ele se vai, fico sozinho para o meu castigo eterno. Quando percebo qual é a punição, os gritos me vêm à boca. Pois ali no canto, me encarando de volta, reconheço um rosto, pois é o meu. Vou ter que conviver comigo. Conhecer cada canto da minha alma. As lágrimas também já não há. Desisto. Não há pior castigo do que conviver consigo mesmo quando se sabe que a alma não é limpa. Me recuso, parto pra briga.
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