terça-feira, 20 de outubro de 2015

Escrevendo para poucos. Minha resenha de Erefuê, do Evandro Affonso Fereira



Um homem, que se casou com uma ninfomaníaca que o traía de várias formas possíveis pelo prazer do sexo, um dia não aguenta mais e mata um dos amantes da mulher. Enquanto aguarda o julgamento, vai tendo flashbacks de sua juventude e do próprio casamento. Esse é o enredo de Erefuê.

"Quando escrevo dou o máximo de mim. Nem sempre o leitor faz o mesmo. Para escrever um livro, leio muito. Não quero dizer que isso seja bom ou ruim, mas me dedico. Logo, o leitor também tem que ser dedicado. Estou sempre querendo dificultar a vida do leitor."

Com uma afirmação dessas, sabe-se de antemão que os livros do Evandro não são de fácil leitura. Sua escrita ganhou fama de hermética pelo estilo único desenvolvido por ele. É um estilo marcado pela oralidade e palavras arcaicas ou pouco usuais e períodos com uma estrutura interessante. Eu arrisco dizer que a escrita do Evandro não seria como é se não tivesse existido Guimarães Rosa. Referências mitológicas também aparecem o tempo todo.

A Literatura é a arte que usa a palavra como matéria prima. E Evandro sabe lapidadar. Em Erefuê, há a substituição de artigos por pronomes desnecessários ao longo de todo o livro: "saudade delas alfombras macias que minha avó tecia", "nunca mais notícia nenhuma dele meu primeiro amor". Claro que os pronomes desnecessários se tornam muito necessários para sua escrita bastante peculiar.

Há também o uso recorrente de onomatopéias e interjeições: "cabeça agora pendendo pro lado esquero pof pof pof batendo na fronte como quem tenta escoar sabe-se lá pensamentos funestos", "desisto apre cabeça latejando puh melhor jogar revistinha no lixo", o que cria uma sonoridade muito original aproximando a escrita da oralidade.

"Estava ficando doentio no começo. Eu ficava uma semana, um mês, para encontrar três palavras sonoras, uma aliteração que desse uma sonoridade. E estava ficando chato. Acho que o leitor também estava achando muito chato."

Apesar de encarar seus livros mais antigos como obsessivos demais, eu gosto dessa escrita do Evandro. Após cinco livos, ele usa menos essas construções, mas usa. Gosto da escrita como desafio e a dele não é só um recurso vazio. É fruto de um esforço genuíno para construir uma boa literatura. Dono de dois sebos que faliram pelo conteúdo excelente ("fali por excesso de qualidade. O pior que tinha nas estantes era Borges"), o autor reflete suas influências na literatura que produz. Só colocamos para fora aquilo que colocamos para dentro. E em tempos de livro como mera mercadoria, ele vai continuar sendo um autor de livros para poucos, mesmo com suas altas vendagens.

"Eu sempre escrevi pensando atingir poucas pessoas. Não se escreve para muita gente pesquisando mais de mil dicionários -africano, latino, etc, etc-. Não se atinge muita gente se ao invés de louco, falar zoró. E não contente com isso, falar zoroó, zoropitó. Eu comecei minha literatura me preocupando com a vida da palavra."


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